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A HORA DA HESITAÇÃO:
O fantástico e o alegórico em A hora dos ruminantes

PORTO ALEGRE
JUNHO/2013

Reitor
Telmo Rudi Frantz
Chanceler
Flávio D'Almeida Reis
Pró-Reitora de Graduação
Laura Coradini Frantz
Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão
Márcia Santana Fernandes

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(51) 3230-3320 – Porto Alegre – RS
Rua Santos Dumont, 888 – Niterói
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www.uniritter.com.br

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A HORA DA HESITAÇÃO: O fantástico e o alegórico em A hora dos ruminantes.
Moises Zanetti Dantas

RESUMO
Este artigo tem por objetivo analisar a presença do fantástico e do alegórico na obra A hora
dos Ruminantes, de José J. Veiga. Através de representações aparentemente ininteligíveis mas
que na verdade retratam a instauração da Ditadura Militar no Brasil, podemos observar como
o romancista causa no leitor um efeito parecido com aquele causado na vida real pelos
eventos que são simbolizados na obra. Além do fantástico, o livro contém muitas metáforas
que, juntas, constituem uma elaborada teia de signifcados que podem passar despercebidos
mas que são bastante claros para o leitor mais atento.
Palavras-chave: fantástico; alegórico; Ditadura Militar; Veiga.

1. A HORA DOS RUMINANTES

A hora dos ruminantes é um romance escrito por José J. Veiga em 1966. A história se
passa na fictícia cidade de Manarairema, um pacato vilarejo de interior com poucos habitantes
que vivem de maneira simples e rotineira. A trama começa a se desenvolver quando um grupo
de homens desconhecidos se instala nas redondezas na cidade, sem dizer por quê, sem se
relacionar com ninguém. As reações das pessoas são as mais diversas: uns demonstram
incredulidade ao ver o que está acontecendo, outros reagem com valentia ao querer enfrentar
os misteriosos visitantes e alguns chegam ao total desespero e se poem a chorar ante ao
obscuro destino da cidade e seu povo (VEIGA, 1994, p. 4):

No dia seguinte a cidade amanheceu ainda sem toucinho, mas com uma novidade:
um grande acampamento fumegando e pulsando do outro lado do rio, coisa
repentina, de se esfregar os olhos, As pessoas acordavam, chegavam à janela para
olhar o tempo antes de lavar o rosto e davam com a cena nova. Uns chamavam
outros, mostravam, indagavam, ninguém sabia. Em todas as casas era gente se
vestindo às pressas, embaraçando a mão em mangas de paletó, [...] gente xingando,
gente dando peitada em gente, derrubando chapéu, a algazarra, a correria.

No entando, com o passar do tempo, o estranho começa a causar menos estranheza e
os homens passam a ser vistos com indiferença. As pessoas lentamente passam a retomar suas
atividades diárias com normalidade, e os visitantes já não são mais o assunto que domina as

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rodas de conversa dos habitantes. Pouco a pouco, parecia que a vida seguiria como se nada
houvesse acontecido em Manarairema (VEIGA, 1994, p.14):

Manarairema já não se preocupava tanto com os homens, e quando alguém falava
neles era como quem se refere a realidades familiares – o calor, doenças, a carestia –
o acostumado, o absorvido. Mesmo Amâncio Mendes, antes tão pronto a gritar em
defesa deles, agora parecia desinteressado. Para todos os efeitos era como se a tapera
de Júlio Barbosa continuasse abandonada – ou como se aqueles homens sempre
tivessem vivido lá [...]

Entretanto, com o desenrolar da história, os acontecimentos subsequentes se mostram
mais inexplicáveis e incompreensíveis do que a chegada destes homens, causando nos
habitantes um sentimento de estranheza ainda maior. No segundo terço do livro, uma
imensidão de cachorros toma conta do povoado, forçando os moradores a se esconderem em
suas casas, com medo do que possa fazer esse exército canino. Os animais se alastram por
toda a parte, se alimentando das aves terrestres criadas pelos moradores para seu próprio
consumo, e urinam e defecam por toda a parte. O ruído mais ouvido pelas ruas da cidade
passa a ser o coça-coça dos cães, acompanhado de seus latidos e uivos noturnos. Sem
explicação, sem motivo, sem o menor sentido, os animais chegam e dominam a cidade.

Apesar disso, mais uma vez, o inusitado começa a fazer parte do cotidiano das
pessoas, que se acostumam com a presença dos cães e tentam retomar suas vidas na
convivência com seus novos moradores: “Quando foi ficando claro que os cachorros não
estavam interessados em morder ninguém, [...] as pessoas foram criando coragem e saindo de
casa desarmadas, e até já achavam graça nos desatinos e bodejos dos bichos.” (VEIGA, 1994,
p. 37). E assim foi, todos retomando sua normalidade, até o dia em que os cães, como se
tivessem ouvido um chamado, bateram em retirada repentinamente, deixando para trás uma
Manarairema confusa e estupefata.
Na terceira e última parte da obra, porém, o inexplicável veio para mais uma vez
deixar os moradores atônitos. Ainda pensativos sobre a chegada e a partida dos cães, eles
tiveram uma nova surpresa quando sua cidade foi absolutamente tomada por bois. Um a um,
os animais foram chegando e tomando conta de cada metro quadrado disponível, até o ponto
em que a população não conseguia sequer sair de suas casas (VEIGA, 1994, p. 84):
Não se podia mais sair de casa, os bois atravancavam as portas e não davam
passagem, não podiam; não tinham para onde se mexer. Quando se abria uma janela

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não se conseguia mais fechá-la, não havia força que empurrasse para trás aquela
massa elástica de chifres, cabeças e pescoços que vinha preencher o espaço.

Não fosse já ruim o suficiente, muitas pessoas estavam adoecendo por conta da quantidade de
urina e fezes que havia por toda parte. Manarairema parecia estar sofrendo uma espécie de
praga ou maldição, lançada por aqueles homens misteriosos que se instalaram à entrada da
cidade da noite para o dia e que mudaram completamente o cotidiano de todos desde então.
Pela terceira vez, a estranheza e a incredulidade tomaram conta dos moradores da cidade e,
também pela terceira vez, o inóspito foi se misturando com o corriqueiro, já que “os bois não
saíam mesmo, o que se queria era dormir, esquecer e estar preparado, a vida restante tinha de
ser vivida dentro de cada um” (VEIGA, 1994, p. 94).
O tempo foi passando, e a população de Manarairema se resignou com o fato de que
os bois estavam lá “fincados, teimosos, definitivos, como há dias, há meses, há anos, talvez há
séculos” (VEIGA, 1994, p.94), até que, sem motivo aparente, eles foram embora de uma só
vez. De uma hora para a outra, os bois sumiram por completo da cidade, deixando para trás
apenas esterco e espanto. Não demorou muito até que os homens misteriosos sumissem
também, sem dar explicação, assim como chegaram. O que sobrou na cidade foram pessoas
confusas, sem conseguir entender a sequência de acontecimentos, mas felizes por enxergar no
horizonte a esperança de que a vida voltaria, enfim, à sua normalidade.

2. O FANTÁSTICO
Segundo Todorov (1981, p. 15), há um mundo “que é o nosso, que conhecemos, sem
diabos, sílfides, nem vampiros” – ou seja, o mundo em que vivemos, sem a presença do
inóspito ou inexplicável e com regras que regem o que é possível e impossível. Quando
acontece um evento que não pode ser explicado por essas regras, segundo o autor
(TODOROV, 1981, p.15):

Quem percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou
se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do
mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte
integrante da realidade, e então esta realidade está regida por leis que
desconhecemos. [...] O fantástico ocupa o tempo desta incerteza.

Assim, o fantástico consiste na hesitação, no tempo que levamos para decidir se nossos
sentidos estão nos traindo e aquele fato extraordinário que foge à regra não passa de uma

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ilusão, ou se as regras em que confiávamos talvez não fossem tão certas assim. Afinal, quando
se tem certeza absoluta, significa que as regras estão todas sendo obedecidas e então a
racionalidade predomina. Por outro lado, se há incredulidade total, é porque o evento em
questão desrespeita às regras de tal maneira que é impossível que ele seja verdadeiro e
provavelmente não passa de imaginação ou de um engano.

Em A hora dos ruminantes, essa hesitação pode ser percebida em diversos momentos.
Quando os homens misteriosos chegam a Manarairema, por exemplo, os moradores
apresentam diversas reações por não saberem do que aquilo se trata. Quando os cães tomam
conta da cidade – assim como quando vão embora –, a incredulidade da população da cidade é
exatamente a hesitação referida anteriormente, tentando decidir entre acreditar que os cães
foram enviados pelos homens ou se aquilo é uma espécie de maldição. Por fim, logo que os
bois começam a invadir as ruas, e também quando eles repentinamente desaparecem,
novamente o que se vê é perplexidade – consequentemente, hesitação, o espaço de tempo
necessário para a presença da incerteza. O “não entender” o por quê, a falta de certeza e a
dúvida são os elementos que mostram claramente a presença do elemento fantástico na obra
de José J. Veiga.

No entanto, Todorov chama a atenção para o fato de que não apenas o personagem ou
heroi da narrativa é que sofre esse estranhamento, mas também o leitor. Segundo ele
(TODOROV, 1981, p. 19):

O fantástico implica pois uma integração do leitor com o mundo dos personagens;
define-se pela percepção ambígua que o próprio leitor tem dos acontecimentos
relatados. Terá que advertir imediatamente que, com isso, temos presente não tal ou
qual leitor particular, real, a não ser uma função de leitor, implícita ao texto [...].
A vacilação do leitor é pois a primeira condição do fantástico.

Em outras palavras, o que verdadeiramente constitui o fantástico não é a hesitação do heroi ou
dos personagens de uma história, mas sim a hesitação do leitor – sendo este apenas um
“servente” da obra a desempenhar sua função de leitor. O autor mostra que a maioria das
“obras fantásticas” representa essa hesitação diretamente na obra ao fazer com que os
personagens se deparem também com ela, de modo a criar uma identificação do leitor com
estes e, consequentemente, causar igualmente nele o efeito fantástico. Mesmo assim, essa
identificação não é imperativa para que esse resultado seja atingido, visto que os fenômenos
presentes na história podem contradizer as leis da natureza (criando a hesitação) mas ser

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confirmados por indícios secundários dentro da própria narrativa. Assim, “esta regra da
identificação é uma condição facultativa do fantástico: este pode existir sem cumpri-la; mas a
maioria das obras fantásticas se submetem a ela.” (TODOROV, 1981, p. 19). No caso do livro
de Veiga, essa estratégia é utilizada, já que a mesma perplexidade observada nos personagens
é também causada no leitor.

3. O ALEGÓRICO

Segundo a Infopédia (2013, linhas 1-7), a definição de alegoria é:

Figura de estilo complexa, de caráter macro-estrutural, que é constituída por uma
sequência continuada de figuras micro-estruturais, baseadas na analogia, que são
geralmente metáforas. A alegoria encerra uma comparação alargada entre uma
realidade concreta e animada, que é mostrada ao leitor/ouvinte com o objetivo de
explicar/clarificar uma entidade abstrata (intelectual, moral, psicológica,
sentimental, teórica). Esta realidade mental, de mais difícil compreensão, é
representada através de entidades concretas, objetivas, normalmente seres humanos
ou animais, com uma finalidade didática. Por isso, a alegoria assume, muitas vezes,
a forma de parábola, de sermão, de exemplo, de sátira, etc., e é possível ser
encontrada em todos os géneros literários. A dimensão macro-estrutural da alegoria
permite que seja alargada à totalidade de uma obra, como um conto, uma epopeia
ou uma peça de teatro. (grifos nossos)

Assim, podemos entender que o elemento alegórico se faz presente quando se utiliza de
metáforas sequenciais e conectadas entre si, de modo a criar um retrato da realidade
utilizando-se de elementos representativos. Etimologicamente, “o grego allegoría significa
„dizer o outro‟, „dizer alguma coisa diferente do sentido literal‟” e, desta maneira, “uma
alegoria é aquilo que representa uma coisa para dar a ideia de outra através de uma lição
moral.” (CEIA, 1998, p. 1).

Isto posto, devemos contextualizar a obra de José J. Veiga para que possamos então
identificar quais eventos são representados através de alegorias. Publicada em 1966, a
primeira edição de A hora dos ruminantes veio apenas dois anos depois do Golpe Militar
ocorrido no Brasil em 1964 que, em um primeiro momento, causou estranheza e instabilidade
no povo brasileiro. A população, assim como os personagens de Manarairema, sofreu grande
opressão por parte do desconhecido e do incerto, sem entender os motivos nem os objetivos
por parte daqueles homens misteriosos, que se limitaram a tomar suas ações sem esclarecer

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detalhes de sua “agenda oculta”. A série de metáforas utilizadas pelo autor deixa claro seus
referidos (VEIGA, 1994, p. 4):

Seriam ciganos? Não estava parecendo. Cigano arma barraca espalhado e pendura
panos por toda parte, em desordem; e aqueles lá acamparam em linha, duas fileiras
certas, medidas, deixando uma espécie de largo no meio. [...] Seriam engenheiros?
Mineradores? Gente do governo? (grifos nossos)

Não só da chegada dos homens, mas também da chegada dos bois, que “atravancavam as
portas e não davam passagem” (VEIGA, 1994, p. 84), assim como os militares que tomaram
conta do Brasil e davam passagem apenas a quem lhes convinha, decidiam o que era
permitido e o que era proibido, atravancando as portas do livre ir e vir, do direito à
manifestação, da liberdade de imprensa e de opinião. Os bois representam a opressão, a
angústia interminável, o sufoco de quem não consegue respirar, que não avista o fim da
repressão e a quem só resta aguardar passivamente até que um fim lhe seja dado.

José J. Veiga utiliza de metáforas intermináveis para criar uma teia de significados
referentes à sua realidade – resultando, assim em uma alegoria. Através de homens, cães e
bois misteriosos e opressores e da hesitação causada pela falta de clareza de suas ações e
objetivos, A hora dos ruminantes é uma alegoria elaborada com maestria que só pode ser
interpretada com precisão pelo leitor mais atento e contextualmente esclarecido.

4. CONCLUSÃO

A hora dos ruminantes é um romance fantástico repleto de metáforas que dão ao livro uma
característica alegórica. Se lida de maneira desatenta, a história pode não passar de uma
porção de eventos inusitados sem nexo nem explicação, fazendo parecer um livro simplório e
sem importância. No entanto, José J. Veiga arquitetou com precisão cada linha de seus
parágrafos, recheando os acontecimentos de representações e hesitação do início ao fim.
Sabendo identificar o livro em seu contexto histórico, fica evidente a intenção do autor de
retratar a instauração da Ditadura Militar no Brasil e de seus efeitos na população.
Ao analisar esta obra à luz dos conceitos de fantástico e alegórico, é possível observar o
apogeu da destreza com que a história é contada e com que seus resultados são repercutidos
no leitor: empregando o fantástico na sua narrativa e revelando a hesitação de seus

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personagens frente aos eventos inóspitos que se sucedem, Veiga consegue espelhar as
consequências sofridas pelo povo após o momento do Golpe e, acima de tudo, transformar o
leitor em vítima indireta de tais sentimentos. A hora dos ruminantes é uma janela temporal e
sensorial, que transporta o leitor ao âmago destes acontecimentos e faz dele um espectador
impotente, incapaz de reagir de maneira diferente daquela com que reagiram os moradores de
Manarairema ou a população brasileira. A hesitação com que o leitor considera e reconsidera
o que lê nada mais é do que a hesitação com que o Golpe foi recebido dois anos antes da
concepção do livro – como se a ficção inserisse o fantástico na realidade.

5. REFERÊNCIAS

VEIGA, José J. A hora dos ruminantes. 29ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. 2ª edição. Cidade do México:
Premia, 1981. (Versão brasileira à partir do espanhol: DIGITAL SOURCE.)

CEIA, Carlos. Sobre o conceito de alegoria. Matraga, Rio de Janeiro, número 10, p. 19-26,
outubro de 1998.

alegoria. In Infopédia [linhas 1-7]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-07-01].
Disponível em http://www.infopedia.pt/$alegoria .


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