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PAG038 2243 v13 5 .pdf


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As eleições de amanhã deverão
dar a vitória ao PiS, um partido
conservador de retórica antirrussa
fortemente apoiado pelos polacos
mais jovens
A jornalista Paulina Siegień lembra-se bem
desses tempos, já que escreve habitualmente sobre Kaliningrado para o jornal “Gazeta Wyborcza”,
um título de referência na Polónia. Os seus lábios
pintados de vermelho esticam-se num sorriso ao
recordar: “Era euforia pura com o que estava a
acontecer. ‘Uau, os russos estão a vir e são normais. Conseguem conduzir um carro, têm mãos,
pernas e tudo o mais!’”, diz entre risos. O cenário
repetia-se todos os fins de semana: no parque de
estacionamento do IKEA da cidade de Gdynia, era
difícil encontrar um carro que não tivesse a placa com o número 39, que identifica os veículos de
Kaliningrado. Dentro da loja, os avisos das promoções passaram a ser ditos em polaco e em russo. Na caixa pagava-se em zlotys, mas também em
rublos, que alimentavam a economia local. Só no
primeiro trimestre de 2013, segundo as estimativas
do Gabinete Central de Estatística polaco, os visitantes russos gastaram o equivalente a 113 milhões
de zlotys na Polónia (cerca de 26 milhões de euros)
— um aumento de 89,6% face ao mesmo período
do ano anterior.
O sentimento era de abertura, mas tudo mudou
no início de 2014, com o estalar da crise ucraniana.
Na estância balnear de Sopot, um local de preferência dos russos, o dono de um restaurante decidiu colocar um papel na porta anunciando que se
recusava a servir clientes do país vizinho. Era uma
“forma de protesto”, dizia. O incidente inflamou a
propaganda russa, que garantia nas suas televisões
que os habitantes de Kaliningrado não eram bem
recebidos na Polónia.
Tudo começou a ruir. O número de visitantes
desceu, sobretudo devido à crise económica russa, que levou à desvalorização do rublo. De repente, já não havia carros no parque do IKEA com
o 39 na matrícula. Agora, só os russos mais endinheirados visitam Gdansk em busca de algo específico, como o festival de teatro Szekspirowski
ou uma visita a um spa. E os polacos não dão tanto por eles: ou não se passeiam pelas ruas, ou são
mais discretos. No Madison, um centro comercial
de Gdansk cujas traseiras dão diretamente para a
igreja ortodoxa da cidade, não é preciso procurar
muito para encontrar quem tenha pouca paciência
para os clientes russos: “Não gosto deles, são mal
educados, não sorriem”, diz-nos uma empregada
de uma loja que vende sobretudo calças de ganga.
“Só desarrumam e não compram nada.” Do lado

russo surgem outras dificuldades. Paulina, que fala
fluentemente russo e que vai quase todas as semanas a Kaliningrado, enfrenta agora muito mais
restrições para trabalhar. Quando pede qualquer
autorização na Rússia encontra mais barreiras e
perguntas por parte das autoridades: “Porquê?”,
“Para quê?”, “Como é que falas russo tão bem?”
Para Paulina, atravessar a fronteira física ainda é
fácil, mas cada vez mais a jornalista depara-se com
outro tipo de muros — os que estão na cabeça de
russos e polacos.

JOVENS EXIGEM “RESPEITO”

“Não acho que seja possível mudar a mentalidade
russa.” A frase é de Aleksandra Bukowska, uma
estudante de psicologia de 21 anos nascida e criada
em Frombork, uma cidade polaca a menos de 30
quilómetros de Kaliningrado. Também ela já passou para o lado de lá daquela fronteira, ao abrigo
de um intercâmbio entre escolas das duas regiões.
Mas nem o facto de ter estado em Kaliningrado e de
ter feito amigos russos a faz mudar de ideias quanto
à política de Putin, que despreza. Não é por isso de
admirar que Aleksandra tenha sido uma das centenas de polacos que aderiram entusiasticamente
à campanha “Coma maçãs para chatear Putin”.
Depois de a fruta polaca ter sido banida da Rússia,
muitas pessoas tiraram fotografias a comer maçãs
e colocaram-nas nas redes sociais com a hashtag
#JedzJablka (Coma Maçãs), para incentivar o consumo interno da fruta e ajudar os produtores do
país, que perderam um dos seus principais mercados com o embargo russo. “Foi muito divertido, porque em todo o lado toda a gente estava a
comer maçãs polacas. Nas lojas, nas escolas, em
todo o lado!”, conta Aleksandra. O ativismo desta jovem estudante da Universidade de Gdansk
vai para lá de uma ação espontânea no Facebook:
recentemente, Aleksandra juntou-se à juventude
partidária do Lei e Justiça (PiS), um partido conservador, nacionalista e antirrusso, que será muito
provavelmente o vencedor das próximas eleições
legislativas a 25 de outubro. As últimas sondagens
dão-lhe 33%.
O sentimento antirrusso alicerça-se sobretudo
nas camadas mais jovens da Polónia. Segundo um
estudo de 2014 feito pelo Centro de Investigação
Polaco da Opinião Pública, 56% dos inquiridos entre os 18 e os 24 aos dizem ter antipatia pelos russos — o nível mais alto entre todas as faixas etárias.

E 42

E essa antipatia traduz-se em votos: nas eleições
presidenciais, 60% dos jovens apoiaram na segunda volta o candidato do PiS, Andrzej Duda.
Ninguém sabe ao certo por que razão têm os mais
novos aderido à mensagem do PiS, nem o motivo
que os leva a serem um dos grupos mais críticos da
Rússia de Putin. Alguns falam no papel da reforma
educativa que o partido levou a cabo quando esteve
no poder (2005-2007), pela mão do ministro Roman
Giertych: as alterações feitas à disciplina de História
terão ajudado a criar uma imagem da Polónia como
vítima face à Rússia ao longo dos tempos. Outros dizem que os jovens, descontentes com a precariedade
e o desemprego elevado, simplesmente gostam de
pôr em causa o statu quo e de assumir posições mais
radicais. “O meu marido é professor na Universidade e ele diz-me que esta geração mais nova é muito
mais conservadora do que a nossa”, diz a jornalista
Paulina, de 29 anos. “Os filhos dos anos 90 sentiram
todo este período pós-moderno... São muito conservadores e isto preocupa-me, porque eles têm uma
visão muito única da História.”
A confirmar-se a vitória do PiS nas eleições de
amanhã, as relações entre a Polónia e a Rússia podem azedar ainda mais. “Não queremos lutar contra a Rússia”, garante Aleksandra, explicando as
posições do seu partido. “Mas a Polónia precisa de
se tornar um grande país, não em termos de área,
mas em termos militares. A vida aqui seria melhor
se os outros países nos respeitassem. Isso é o mais
importante, o respeito.” O primeiro confronto deverá ser sobre o desastre de Smolensk, o acidente
aéreo na Rússia onde morreu o então Presidente
polaco Lech Kaczyński e outros membros da elite política do país. “Foi há cinco anos, mas o avião
continua na Rússia e a Rússia não quer dá-lo. Acho
que é um escândalo!”, diz Aleksandra.
Sentada num café do Centro Europeu de Solidariedade, local erigido para celebrar o movimento sindical liderado por Lech Walesa que ajudou a
derrubar o comunismo na Polónia, Paulina reflete
sobre o futuro. A jornalista teme que a subida ao
poder do PiS acabe com todos os laços entre russos
e polacos. Isso pode começar, por exemplo, pelo
acordo de circulação entre Gdansk e Kaliningrado.
“Eles podem estragar tudo”, desabafa.
Até lá, Paulina, tal como Aleksandra, vai mantendo contacto com os seus amigos russos. Mas, tal
como a jovem estudante de Frombork, esta jornalista
que ouve hip-hop russo e que vota assumidamente
à esquerda evita falar de política com os seus amigos de Kaliningrado. “O que é estúpido, porque não
há um diálogo real quando não discutimos as nossas posições. Mas acho que é melhor assim”, confessa sem rodeios. “Kaliningrado não vai desaparecer.
Vai continuar a ser o nosso vizinho, que também
é uma ameaça, mas as pessoas vão ficar lá e é melhor se tivermos boas relações. Porque não sabemos
como vão estar as coisas daqui a cinco anos”, remata
Paulina. Olhos nos olhos, com os lábios vermelhos
apertados numa fina linha de tensão. b
cbruno@expresso.impresa.pt


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