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Mutirão 1º edição [web].pdf


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por Raul Souza

por Rodrigo Gafa

por Felipe Vaz

por Alex Dantas

por Celso Hartkopf

por Igor Colares

por Isabela Stampanoni

por André Valença

Desenhar tiras
por Matheus Torreão

por Matheus Torreão & Celso Hartkopf

por Celso Hartkopf

Desenhar tiras é um lance que quase nunca ocorre
a alguém que não esteja atolado vexatoriamente
na merda. De todas as formas de expressão já
concebidas pela mediocridade da espécie humana,
dos garranchos neandertais aos 6 ou 7 mil anos de
neurose escrita documentada, nenhuma jamais
havia sido capaz de rebaixar a tinta e o verbo à
tamanho grau de infantilização e miséria semiótica.
Em termos de potência transformadora, uma tira
se equipara a uma dissertação de mestrado; de
sutileza, a um saco escrotal. É, em suma, a oziação
da linguagem no seu mais alto grau de saturação.
Da mesma maneira, é forçoso admitir, a tira tem
emergido como um gênero textual extremamente
fecundo para captar com precisão cirúrgica os
picos de delírio, truculência e depravação
característicos dos períodos de intensa vacilagem
ética. Mais que isso: é uma escavadeira bruta que
dá a ver sem escrúpulos as molas profundas da bad
trip que nos assola. Nesse ponto é necessário que
se evitem temerárias associações do argumento

por Raul Souza

aqui desenvolvido com cacoetes pós-modernos
tipo "pós-verdade" (especialmente depois dos
pós-modernos terem gastados décadas tentando
provar que a verdade não existe). O que a tira
suscita é um estado de arrebatamento estético
ontologicamente TORTO: a saber, o "estado de
lombra". E poucos fenômenos ilustram de maneira
mais didática a natureza desse transe disfuncional
como a tira gigante.
Cá um exemplo: Borges certa vez escreveu sobre
um Império no qual os cartógrafos, de tão
obcecados com a precisão de suas representações,
desenharam um mapa do exato tamanho do
Império, que imediatamente se provou inútil e logo
foi abandonado para desfazer-se em ruínas
habitadas por animais e mendigos. Em nada
surpreenderia se os arqueólogos descobrissem
que a população daquele não-lugar se valera da
superfície dos muros para desenhar tiras. Uma vez
concebida a realidade como um simulacro
putrefato de papel e tinta, que mais resta a fazer,
senão ler a sessão de quadrinhos?