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BALBÚRDIA 2017 (1) .pdf


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Balbúrdia

Daniel Perugini

Balbúrdia

O ACRÓSTICO

1

Depois de um exaustivo dia de trabalho, Luana chegou em casa
e jogou no colo de Otávio, seu marido, mais um dos produtos dos
clientes da agência de publicidade para a qual trabalhava.
Tratava-se de um singelo pacote de gelatina que trazia como
brinde vinte e três forminhas de plástico das letras do alfabeto,
de A a Z.
– Oi amor – disse ela, enquanto observava o marido teclando
impacientemente em seu notebook.
– Oi Lu, o que é isso aqui? – perguntou Otávio, prestando mais
atenção no computador que na esposa.
– Meu novo job. Preciso de uma ideia genial até sexta... Tô
ferrada!
– Sei. Mais uma inutilidade pro depósito de tranqueiras que
virou o quarto de visitas. – retrucou Otávio, abrindo o saquinho
com as letras.

– Olha o linguajar, Otávio! A Bia ainda tá aqui com a Laura!
Esqueceu que as duas estão estudando juntas? – sussurrou entre
os dentes, tentando não se fazer ouvir pelas duas.
– Isso que dá incentivar a empregada a estudar! – disse Otávio,
passando o dedo na mesinha de centro e retirando uma densa
camada de poeira.
– É, a casa anda meio bagunçada mesmo. Sinal que o estudo das
duas vai bem. – observou Luana.
– Então por que não contratamos uma professora ao invés de
uma diarista? Deve sair até mais barato! – caçoou Otávio,
enquanto pegava o telefone.
Ele discou o número do seu servidor de internet e, depois de um
animado papo com duas ou três gravações de voz sensual, um
ser humano atendeu do outro lado:
– Fastnet, Janaína Fernandes, boa noite, em que posso ajudar?
– Boa noite. A minha internet não está conectando.

– Ah, que nada! Aquilo ali é um laboratório de idéias.

– Senhor, preciso do nome completo e dos quatro primeiros
dígitos do CPF do titular da assinatura.

– Hum. Acho que você precisa dar uma organizada nessas idéias.

– Otávio Bianucci, 8989.

Otávio largou as letras espalhadas no sofá e voltou sua atenção
novamente para o notebook enquanto Luana foi para a cozinha,
cheia de fome.

– Otávio de quê, senhor?

– Mas que merda de internet! Não quer conectar de jeito
nenhum. – ralhou Otávio, e Luana imediatamente colocou a
cabeça na porta para encarar o marido.

– Esse sobrenome italiano só me ferra! – reclamou, tampando o
bocal do telefone.

– Bianucci. – repetiu Otávio, lentamente.
– Não entendi senhor, poderia soletrar por gentileza?

– É o quê?! – perguntou a esposa, confusa, que passava naquele
momento pela sala.
– Deixa pra lá – disse Otávio, e voltou sua atenção para a ligação.
– OK, vou soletrar. B de Bola, I de Igreja, A de Amor, N de Navio,
U de Uva, C de Casa, C de Casa, I de Igreja de novo. BIANUCCI.
Otávio detestava ter que soletrar o sobrenome, mas tentou
manter a calma. Afinal, era apenas o começo da ligação, que ele
sabia que tinha tudo para ser longa.
– Ah! Você é um gênio amor! Você acabou de me dar uma idéia
para a campanha da gelatina! – gritou Luana, pulando de
felicidade em direção ao marido e dando-lhe um abraço.
– O quê? Peraí Lu, eu tô tentando resolver o problema da
internet. – disse Otávio, sem entender. Luana não ligou para a
rispidez do marido e foi para a cozinha cantarolando.
– Certo senhor Otávio, o senhor já tentou... – recomeçou a
telefonista.
– Inverter os cabos? Sim, já tentei.

– Amor, problema resolvido! Estou pensando em um jingle com
essas palavras que você soletrou agorinha! – disse Luana,
animada, voltando à sala.
– Que palavras?
– A de Amor, B de Bola, e por aí vai...
– Tem certeza, Lu? Nada que vem do telemarketing costuma dar
bons frutos. Essa propaganda vai zicar.
– Ih, relaxa. – disse Luana, se afastando e pegando o celular para
registrar a idéia, ainda fresca. – Já tá tudo aqui na minha cachola.
– Senhor, ainda está aí? Senhor? – chamou a operadora. Otávio
havia se esquecido completamente que estava em uma ligação.
– Sim, sim, estou, pode falar.
– Senhor, verifiquei com o setor responsável e a informação é de
que estamos com um problema técnico na sua região, mas
estamos fazendo o possível pra estar solucionando o quanto
antes...

– O senhor já tentou desligar o modem e ligar novamente?

– Sei, sei. E até quando isso será resolvido? – perguntou, já
bastante impaciente.

– Já tentei tudo, até macumba! Por que vocês não colocam uma
gravação dizendo essas coisas?

– Entre vinte e quatro e setenta e duas horas senhor. –
respondeu mecanicamente a atendente.

– Ok senhor, aguarde um momento que eu vou estar checando a
situação.

– Nem sei por que perguntei... É sempre o mesmo prazo. –
retrucou Otávio, sarcasticamente.

Uma música irritante começou a tocar do outro lado da linha e
Otávio jogou as pernas para cima do sofá, tentando relaxar.

– Algo mais em que eu possa ajudar, senhor?

– Pede uma urgência pra mim, por favor. Eu preciso da internet
pra trabalhar.
Depois de se recusar a responder o questionário de satisfação do
cliente, ele finalmente desligou o telefone, insatisfeito.
– E aí, conseguiu resolver? – perguntou a esposa. Ela trazia o
celular e um bloquinho de anotações.
– Que nada. Esse pessoal só resolve as coisas quando você está
mudando de servidor ou morrendo. Qual das duas opções você
acha mais apropriada para uma próxima ligação? – indagou,
fazendo Luana rir.
– Por que você não dá um pulinho lá no Fred? A internet deles
deve estar o.k, é outro servidor.
– Já tentei, eles saíram. – explicou, desanimado.
– Então esquece isso um pouco, Otávio. Depois você vai na lan
house aqui do lado se precisar. Ó, ouve só o jingle! Tá pronto! –
disse empolgada, apertando o play em seu celular.
Sua voz gravada ecoou pelo ar, entoando uma leve melodia.
“Quando eu digo A, me dá vontade de abraçar
Com amor eu quero um Beijo que com B vai começar
Do C pulo pro G porque não quero esperar
A Gelatina bem Gostosa que a mamãe vai preparar!
Gelatina Real, o sabor do saber! Agora com um brinde: as
forminhas do alfabeto!”

2
Otávio, que havia apelado para o ambiente hostil da lan house
próxima a seu prédio, conseguiu enviar a crítica para seu chefe
em meio a tiros, granadas e insultos vindos de todos os lados.
Porém, no dia seguinte o problema da Internet ainda perdurava.
– Nada! Incrível... Mais um dia sem conexão. – disse, ao chegar
em casa do trabalho e ligar seu notebook.
– Que tal conectarmos outras coisas? – sussurrou Luana, que
vinha da suíte vestindo uma cinta-liga roxa provocante.
– Agora não Lu, tenho que resolver esse problema da internet!
Você sabe que eu preciso enviar a crônica pra edição de amanhã.
– disse, tentando desviar os olhos da esposa e fingir que não
achara o convite no mínimo tentador.
– Ultimamente você passa mais tempo com essas atendentes de
telemarketing que comigo. – resmungou Luana, indo para o
quarto cabisbaixa depois da tentativa frustrada de seduzir o
marido.
Após outra longa ligação sem resultados concretos, Otávio foi
para a cama de cabeça cheia e não deu a mínima atenção às caras
e bocas provocantes que Luana lhe fez. Apagaram as luzes e
dormiram, encarando as paredes opostas do quarto.
3
Luana mal havia materializado em sonho a imagem do marido
em meio a várias telefonistas vestidas com um modelo de

lingerie estranhamente parecido com a sua cinta-liga roxa
quando foi acordada pelo estridente toque do seu celular, que
vibrava loucamente no criado-mudo.
– Alô. Cecília? - ainda sonolenta, ela esticou o braço para agarrar
o aparelho ao ver pela tela que era a amiga do outro lado da
linha. – Que foi? Aconteceu alguma coisa? – perguntou, tentando
camuflar um bocejo. Otávio, que dormia como uma pedra a seu
lado, não expressara o mínimo sinal de vida.
– Aconteceu, amiga! Aliás, melhor dizendo, não aconteceu. –
desabafou Cecília, sem rodeios.
– Como assim, Cê? O que aconteceu? Ou não aconteceu, sei lá... –
perguntou Luana, com o raciocínio ainda comprometido pelo
sono.
– O Fred não deu conta. Pela primeira vez, não deu conta... –
sussurrou Cecília, que parecia fazer força para alguém não ouvir.
Luana se aprumou na cama e esfregou os olhos.
– Explica isso direito, menina. Do quê exatamente você está
falando?
– Ele broxou! Bro-xou! – soletrou Cecília, decepcionada. – E logo
hoje que eu usei aquela lingerie sensual que você me ajudou a
escolher, lembra?
– A cinta-liga roxa!? – admirou-se Luana.
– Sim amor, essa mesmo, põe essa que eu gosto... – balbuciou
Otávio, de repente. – Luana deu um cutucão no marido, que
respondeu com um ronco.

– Sim amiga, essa mesmo! – respondeu Cecília, com pressa. –
Olha, depois eu dou mais detalhes, ele acabou de sair do banho!
Luana desligou o telefone e notou que Otávio havia acabado de
acordar.
– Quem era a essa hora? – perguntou, ainda meio zonzo.
– A Cecília.
– E o que é que ela queria?
– Ahn... Um termômetro! A Bia tava passando mal e ela queria
emprestado. – inventou Luana. Sabia que Otávio iria zombar do
amigo se soubesse de seu pequeno insucesso.
– Mas que mãe relapsa é essa que não tem termômetro em casa?
– indagou Otávio, incrédulo.
– Ah, deixa pra lá. Aliás, falando em termômetro, você não acha
que nosso sexo anda meio... morno? – perguntou Luana,
aproveitando a deixa.
– Ah, é sério que você quer falar sobre isso a essa hora? –
murmurou Otávio, consultando o relógio.
– Tá, na hora do futebol então a gente conversa!
– Já que é assim, pode falar...
– Sei lá, eu tenho medo que a nossa relação possa esfriar, sabe...
Ou melhor, amolecer. – explicou Luana.
– Amolecer? Pare de falar por metáforas e seja direta, por favor.
– Acho que precisamos de algo pra apimentar o sexo, antes que

algo aconteça. – disse rapidamente, como se estivesse se
livrando de uma verdade incômoda.
Otávio refletiu por alguns instantes e um sorriso esperançoso se
esboçou no canto de sua boca.
– Hmm... Acho que sei onde você tá querendo chegar. Que tal um
ménage?
– Pode parar por aí, seu espertinho. Vai sonhando! – disse Luana,
dando um tapa no órgão genital do marido, que
instantaneamente se contorceu de dor.
– Aaaiê!! Aposto que foi a Cecília que andou colocando minhoca
na sua cabeça!
– Nada a ver!
– Te conheço bem, o que você tá escondendo? O que aquela
maluca falou pra você?
– Ih, já falei que não foi nada, deixa de ser teimoso! – disse
Luana, virando-se para o lado.
Depois de alguns minutos, Otávio acendeu a luz do seu lado da
cama e sussurrou:
– Que tal uma casa de swing?
Sem se dar ao trabalho de se levantar, Luana apenas pegou o
travesseiro e atirou-o com força em Otávio, que preferiu guardar
para si as outras aventuras eróticas que pipocavam em sua
mente naquele momento.

4
Nos dias que se seguiram, a cena do casal de amigos frustrados
na cama ia e vinha na cabeça de Luana. Algo em seu íntimo dizia
que sua relação sexual com Otávio estava caminhando para o
mesmo desfecho. Almoçou rapidamente e, decidida, correu para
a sex shop que ficava em uma galeria a poucas quadras do prédio
da agência.
Após esbarrar em um manequim masculino vestindo roupas de
couro, a publicitária passou reto pela seção de acessórios e se
deteve em uma prateleira que continha alguns livros com títulos
sugestivos. O que mais lhe chamou a atenção foi 1001 Palavras e
Expressões para Apimentar seu Amor. Não pensou duas vezes.
Otávio precisava mesmo de um presente daqueles.
Temia que ele fosse reprovar a idéia, mas, para sua surpresa, o
marido não só gostou da novidade como comprovou na cama
que a teoria de Luana realmente tinha fundamento. Aplicou na
prática os ensinamentos do manual de sacanagem verbal e levou
a esposa às nuvens por várias vezes com estímulos quentes ao
pé do ouvido.
5
Bia tocou alegremente a campainha do 502, com a mochila nas
costas. Foi recebida prontamente por Laura, que já esperava pela
garotinha.
– Oi Lalá! – disse Bia, sorridente.

– Oi, meu anjo! Tava te esperando pra gente estudar! –
cumprimentou Laura, abraçando-a. As duas já estavam íntimas.

– Lalá, o que é impotente? Ouvi a mamãe falando com o papai
hoje. – perguntou, com ar inocente.

Otávio não notou a chegada da afilhada, pois naquele momento
gastava mais alguns litros de saliva com a central de
atendimento da internet. A porta de seu escritório estava aberta,
e as duas entreouviam claramente a conversa.

– Num sei, minha filha. Vamos parar de prestar atenção na
conversa do seu Otávio e vamos voltar a estudar aqui. Vamos,
vamos...
Naquele momento, Otávio saiu do escritório em direção à
cozinha para apanhar algo mastigável. Ao perceber a presença
da afilhada ele rapidamente se aprumou e esboçou um sorriso
para cumprimentá-la.

– Minha filha, você não está me entendendo. Eu estou sem
internet há três dias! Já inverti, desinverti, e até pulei corda com
os cabos. Não adiantou nada!
– Certo senhor, preciso do nome completo e dos quatro
primeiros dígitos do CPF do titular.
– Otávio Bianucci. 8989. – respondeu, fazendo força para não
gritar. Naquela altura ele já estava decididamente nervoso.
– Pode soletrar o sobrenome, por gentileza? – continuou a
telefonista, calmamente. Fora o estopim para Otávio liberar o
monstro de raiva que acumulara em seu peito durante os
últimos dias.
– Posso sim, criatura! É B de Boquete, I de Imbecil, A de Ânus, N
de Naba, U de Urina, C de Cacete, C de Caralho, e I de novo, só
que agora de Impotente. Entendeu ou quer que eu repita?!
Laura, já acostumada com o “bom humor” do patrão para com os
profissionais do telemarketing, apenas olhou para Bia forçando
um sorriso amarelo. Esta última mantinha sua postura angelical,
mas agora expressava curiosidade nos olhinhos tímidos.

– Oi minha lindinha, estudando bastante?
Bia apenas balançou a cabeça afirmativamente, enquanto
escrevia algo em seu caderno.
6

– Quer saber? Cansei! Vou roubar a conexão sem fio do Fred, o
sinal chega até o nosso apartamento. Minhas obrigações com o
Diário falam mais alto que meus valores neste momento! –
começou Otávio, furioso com mais um dia offline.
– Você não vai fazer isso, vai? – perguntou Luana, incrédula. Ela
acabara de sair do banheiro, enrolada em um roupão.
– Claro que vou. Vai ser moleza. Eu que configurei o modem do
Fred, ainda lembro a pergunta secreta pra trocar a senha.
– Aposto que é putaria. – comentou Luana, enquanto secava o
cabelo com a toalha.

– Que nada. Olha só – disse, enquanto digitava – “Quando é o fim
da picada?”. Resposta: “quando o mosquito vai embora”. Mas é
uma besta quadrada mesmo esse Fred, sempre gostou de
charadinhas infames. Pronto. Agora é só mudar a senha. –
concluiu Otávio, com um sorriso zombeteiro no rosto.

– Amor da mamãe, você tem ido estudar na casa dos dindos, não
é? Com a moça que trabalha lá?

Alguns andares abaixo, Fred clicava impacientemente o botão
‘conectar’ em seu computador.

– E alguém disse essa palavra lá? O tio Otávio? – perguntou Fred,
preocupado.

– É, parece que a internet caiu mesmo. Tava quase terminando
de pagar as contas. Paciência... – dizendo isso, dirigiu-se ao sofá
onde a esposa estava sentada fazendo as unhas.

– O dindo fica conversando no telefone o tempo todo. –
respondeu Bia, encarando o chão.

– Se fosse só a internet que estivesse caindo por aqui estaria
ótimo. – ralhou Cecília. Fred apenas fingiu que não ouviu e ligou
a TV no canal de esportes.
Enquanto os dois se esforçavam para ignorar-se mutuamente,
Bia entrou na sala sem ser percebida.
– Papai, o que é impotente? – perguntou, sem rodeios, e
permaneceu encarando Fred sem piscar. A indagação
improvável da filha atingiu os pais como uma bomba atômica.
– O quê?! Onde é que você ouviu isso, minha filha? – Fred olhava
da filha para a esposa, sem entender. Será que a notícia teria
vazado a tal ponto de até Bia estar sabendo de seu insucesso na
cama?
– Na televisão, papai. – respondeu, apontando para a telinha.
Cecília, até então calada, dirigiu-se calmamente à filha.

– É mamãe, a Lalá! – respondeu imediatamente, sorrindo.
Como um detetive que acaba de solucionar um mistério, Cecília
olhou para o marido, triunfante.

– Ahn... Filha, vai pro quarto um pouquinho e liga a TV no
desenho, o papai vai conversar com a mãe. Daqui a pouco eu vou
lá levar um pedaço de pudim pra você.
– Ebaa! – saltitando, Bia correu para o quarto e deixou os pais a
sós.
Fred encarou Cecília por um instante, sério.
– O que acabou de acontecer aqui?
– Você ofereceu pudim pra nossa filha depois de ela já ter
escovado os dentes pra ir dormir. – desconversou a esposa,
dando de ombros.
– Se eu entendi bem, minha performance sexual está em pauta lá
na casa do Otávio!
– Jornalista vive de pauta. – zombou Cecília.


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