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KYF .pdf



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Author: ALENCAR

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Janeiro
Ambos os álbuns de Kula Shaker e Jamiroquai ganham platina dupla. A Warners
Brothers tem uma porcentagem de 18.4% na venda dos álbuns. ‘Say What You Want’
por Texas é o hit mais tocado no país. The Pecadilloes e Embrace são as bandas do
momento. No ano passado a indústria musical britânica atinge a marca de 1 bilhão de
libras em vendas pela primeira vez. O novo álbum de Gene é chamado de Drawn to
the Deep End. O diretor de A&R da Polydor, Paul Adam, diz: “Tenho grandes
expectativas que o álbum será um sucesso mesmo com a mudança de estilo.”

Um
“A&R (artista e repertório): O ramo da indústria musical empenhada em encontrar e
nutrir novos talentos.”

E

stou fumando e olhando através da janela do meu escritório enquanto ouço um
cara, um gerente, tagarelando no autofalante. Cinco andares abaixo de mim um
grupo de negros – provavelmente de alguma banda – estão espreguiçando-se no
estacionamento. O vidro é bronzeado, cor-de-mel, e eles não podem me ver. Está um
inverno gélido lá fora e a respiração deles sobe junto a fumaça do baseado que eles
estão passando, encobrindo-os em uma nuvem cinzenta. Além deles, ao longo do
Tamisa na ponte Hammersmith, está um pôster gigante do cara do partido dos
trabalhadores, Tony Blair. Um rasgo foi feito através de seu rosto onde seus olhos
deveriam estar e um par de olhos vermelhos – olhos demoníacos, infernais – queimava
no lugar.
De volta lá embaixo no estacionamento, um dos moleques está se recostando
em meu carro agora, com as mãos nos bolsos e as costas arqueadas contra o Saab
prata como se fosse o balcão do KFC que ele frequenta. Mantenho os olhos nele
quando minha mente se volta à voz vinda do autofalante. Está dizendo coisas do tipo:
-E EMI, Virgin, e Chrysalis. Warner Chappell está fazendo a publicação e eles, bem,
não deveria estar dizendo isso ainda, mas...
Não me diga, eles têm uma propaganda confirmada em um canal de TV?
-Eles têm uma propaganda na TV quase confirmada.
-Uau – eu digo, como se fosse nada.
-Mas você sabe que gostamos de você – o cretino diz.
-Ok, ótimo, pode mandar.
-É um remix cru. Seus ouvidos apenas?
-Claro.
-Ótimo. Tchau, Steven.
-Tchau – penso por um segundo. –Parceiro.
Eu desligo quando Rebecca entra. São quase onze horas, raiar do dia por aqui. “Bom
dia” ela diz, colocando um punhado de correspondências na mesa de café, próximo a
uma pilha de fitas demo de algumas bandas novas – Cuff, Fling, Santa Cruz, Magic
Drive, Montrose Avenue – na qual Darren, um dos novos olheiros, deixou para eu ver.
-Rebecca – digo, sem me voltar da janela.
-Mmmm?
-Você poderia, por favor, interromper o que quer que esteja fazendo, correr lá pra
baixo e mandar os seguranças tirarem aquele maldito preto do meu carro?
Ela se encolhe, fingindo estar horrorizada, e se junta a mim na janela.
-Meu Deus, quem são eles? – diz ela, mastigando um chumaço do seu fino, e longo
cabelo loiro.
-Sei lá. Provavelmente algum contrato eminente do Schneider. O judeu está usando
o homem negro como músculo. Contra nós.
-Você é terrível! – ela me dá uma cotovelada enquanto se dirige à porta, feliz por eu
estar de bom humor. - Ali estão suas correspondências. Não esqueça, você tem aquela

reunião de negócios às doze. – Rebecca é alta com completos lábios de boqueteira.
Belas pernas. Peitos decentes. Mas o rosto está começando a decair - pequenos pésde-galinha ao redor dos olhos, sulcos profundos nos cantos da boca. Ela é alguns anos
mais velha do que eu – perigosamente perto dos trinta – e terrivelmente solteira. Ela
precisa resolver isso, e ela sabe. Hoje ela está vestindo uma minissaia tartan com 30
centímetros de comprimento, tênis de corrida, e uma camiseta preta apertada com a
palavra “PUTA” escrita com pequenos botões de diamante. Como todas as garotas que
trabalham aqui – Exceto por Nicky, nossa Gerente Internacional, que é tão feia que me
deixa irritado ficar no mesmo espaço que ela – Rebecca se veste na linha tênue entre a
prostituição.
-Rebecca -, digo quando ela pega na maçaneta da porta.
-Mmmm? – ela diz, se virando.
-E o hotel? – Viajarei para Cannes na próxima semana para o MIDEM e até agora,
dependendo de quem escolho acreditar, ou Rebecca ou nosso inútil agente de viagens
falhou em me conseguir um hotel adequado.
-Estou trabalhando nisso, Steven. Relaxe. – ela se vira pra sair.
Acredito nela, pois Rebecca, como a maioria das garotas, adora organizar coisas
para você. Ela não poderia ficar mais feliz do que quando está em uma linha com o
agente de viagens, o aeroporto em outra, e cópias do Melhores Hotéis do Mundo e
guias de viagens abertos na mesa a sua frente. Me parece meio estranho que ela curta
planejar todas essas viagens para mim mesmo que ela nunca vá junto, e nunca se
beneficia delas. Não consigo me imaginar planejando algo no qual não ganharei nada.
Deve ser algo na mente das mulheres, eu acho – sentir prazer de saber que o vôo
chegará a tempo de fazer a reserva do restaurante, que o hotel será luxuoso e
surpreendente.
-Mais uma coisa, Rebecca. – ela se vira tentando não suspirar – Você está bonita
hoje. - . Morde e assopra.
-Obrigada -, ela responde, timidamente. Bem, tão timidamente quanto uma garota
que provavelmente já chupou no mínimo trinta paus no ano passado é capaz de sorrir
– Você também.
Ela não está errada. Acabei de passar um mês de férias – Tailândia-Vietnã-Austrália
– e estou bronzeado até os olhos. Estou usando um suéter gola V de casimira, jeans
preto, sapatos de camurça, todos fresco direto da caixa.
Ela sai e eu começo a mexer nas correspondências, a maioria envelopes contendo
fitas de demo, sentindo a costumeira e reflexiva raiva das tentativas de escrever meu
nome – Tem “Stalefox”, “Stellfax” e um mongoloide até escreveu “Stellarfix”. É Stelfox.
Steven Stelfox – antes de sentar com a nova edição da Music Week. Algum cara que
trabalhava lá morreu. Ataque cardíaco aos 32. Lamentável. Lamentável pra caralho.
Enquanto viro as paginas sinto o chão tremer, anéis concêntricos aparecem no café,
e olho em tempo de ver Waters andando desajeitadamente atrás das paredes de vidro
que separam meu escritório do resto do andar. Ele é realmente singular, o Waters. Um
e oitenta e oito, talvez noventa, uns cento e quinze quilos. Ele está segurando alguns
papéis e tentando parecer ocupado, em uma tentativa risível de mascarar uma
monstruosa ressaca. Ele está com o rosto vermelho, olhos fundos, com pingos de suor
marcando sua testa. (Fazer qualquer coisa, levantar um cassete, discar um número de
telefone, faz com que Waters se derreta em uma nojenta suadeira de estuprador.) Ele
cansadamente me faz um sinal demoníaco, estendendo o mindinho e o indicador de

sua gigantesca pata. Ele está puxando seu cachorro-ratazana, um pequeno Jack
Russell, atrás dele. Ele acha que trazer a porra do cachorro ao escritório o faz parecer
excêntrico e interessante. O faz parecer um otário. Como um brontossauro, sua figura
colossal é controlada por um cérebro do tamanho de uma uva, e esse cérebro-uva, que
já não era muito dinâmico para começar, foi bastante danificado por anos de abuso
crônico de pó. Eu aceno seriamente, só pra aliviar seu atraso, e pego o controle
remoto.
Assisto VH1 um pouco – Blur, Radiohead, Oasis e o Brand New Heavies – estava
prestes a desligar quando vejo a prévia do próximo Brit Awards. Nós temos Dodgy, o
Chemical Brothers, o Prodigy, Longpigs, Mansun. Acendo outro cigarro e assisto Ellie
Crush ser entrevistada. –“Isso aí,” ela diz, “eu sei que tem um monte de pessoas por aí
que acham que mulheres não conseguem fazer as coisas que tô fazendo. Que ela é
uma marionete, tá ligado? Mas, cê sabe, eu tô aqui, escrevendo as letras checando os
arranjos e tudo o mais. Tá ligado? Minhas músicas vêm daqui.” Ela põe uma mão
sinceramente no coração.
Crush, nominada como Melhor Descoberta, é uma londrina do leste de vinte e um
anos de idade, assinada por Parker-Hall no EMI. Seu disco de estreia aclamado pela
crítica foi lançado na última primavera e alcançou Nº 63 nas paradas. E,
misericordiosamente, parecia que ia ser só isso. Game Over. Hasta la vista, baby.
Então, gradualmente, horrivelmente, começou a vender. Boca a boca. Subitamente,
eles conseguiram uma single na playlist da Radio 1, e o álbum virou ouro. Não quero
contemplar o que pode acontecer com a maldita coisa, o que pode acontecer com
Parker-Hall, se Crush ganhar o Melhor Descoberta. Faço uma nota na minha lista de
tarefas para ligar amigavelmente pro fodido.
-Porque só uma coisa vale – Crush diz ao entrevistador, - intreguidade. Tá ligado? –
Eu baixo o som enquanto ela começa a discutir sobre controle de armas ou algo assim.
É interessante, eu lembro de estar na festa de assinatura a um ano atrás quando
alguém usou a frase “integridade artística” na presença dela. Ela arqueou as
sobrancelhas e ela perguntou ao gerente – não-retoricamente – “Quem é
intreguidade?”. Aí está uma garota que mal sabe ler. Uma garota que, a apenas alguns
malditos meses atrás, teria lambido o suor azedo do testículo molhado de um mendigo
para obter um acordo com uma gravadora, e ainda sim ela fala sobre “integridade” e
só Deus sabe o que mais. Quando eles não vendem nada, é um pesadelo. Quando eles
vendem muito, é outro pesadelo. Porque então esses tolos, esses empresários sem
ensino médio, esses restos de aborto sem neurônios, subidamente acham que o fato
de que alguns milhares do Grande Público Britânico (aqueles animais) gostam das suas
cantigas e respondem em um nível primitivo às suas bostas de música, significa que
eles tem algo de valor a dizer sobre qualquer, desde a Bolsa de Valores ao processo de
paz no Oriente Médio. Então, da próxima vez que você ver algum diva nominada ao
Mercury Music Prize/Brit Award/Grammy por aí dando o velho “Eu sou uma mulher
forte e independente com ideias interessantes”, lembre-se disso - foi só pelo por causa
de um pequeno sorriso do destino, o mais louco dos acasos, o mais improvável dos
milagres, que os grandes discursos delas não têm como clímax as frases: “Desculpe
senhor, o vôo irá atrasar” ou “Anal é 20 pratas a mais, cara.”
Há falatório sobre as músicas de Ellie Crush estarem começando a decolar na
América. Se isso acontecer é concebível que poderá vender milhões de cópias ao invés
dos poucos milhares que leva para constituir uma venda razoável por aqui. Eu sei que

Parker-Hall tem dois pontos na venda do disco porque deixei seu advogado bêbado em
uma festa de natal. Se o disco vender apropriadamente na América, Parker-Hall pode
se tornar um milionário. Ele tem vinte e cinco. Dois anos mais novo que eu. Admitir a
possibilidade do sucesso dele na minha cabeça me faz cambalear. Sinto-me nauseado.
Doente. Tiro minha mente do assunto fumando outro cigarro e fazendo algumas
contas, notando com alguma surpresa que eu consegui gastar quase dois mil em
“entretenimento” no último dezembro.
Na verdade, não é particularmente verdade que minha mente estava no assunto,
ou em qualquer objeto, por muito tempo. Dentro da minha cabeça é o seguinte:
imagine um banco gigante de telas, dúzia delas, bem alto lá em cima, como você vê na
NASA, no Controle de Missão. A qualquer momento muitas delas estarão mostrando
pornô hardcore: bancos e mais bancos de close-ups – alguns tão próximos que estão
pixelizados a ponto de parecer borrado – mostrando enormes pênis entrando e saindo
de bucetas, dildos lúgubres penetrando bundas furiosa, paus deslizando duraços entre
peitos lubrificados. Outras mostram coisas financeiras: gráficos com o preço dos bares
de Londres, empresários gritando em seus ternos listrados, gráficos de pizza das ações
do mercado da música, tijolos de dinheiro sendo empilhados, balancetes, figuras
vermelhas, figuras pretas, ações resgatadas, ações não resgatadas. Algumas telas
mostram bandas e cantores: alguns que assinei no passado, novos no qual estamos
pensando em assinar, bandas de sucesso que eu quis assinar, mas não o fiz (as que
mais me assombram). Um punhado distante de monitores, empilhados em um canto
poeirento, mostra aleatoriamente cenas dos meus colegas e rivais sendo
grotescamente torturados.
Há alguns caras na minha cabeça também. Os técnicos nas camisas de mangas
curtas, com canetas no bolso da camisa, e com seus pequenos fones de ouvido, e seus
copos de café na mão. Eles se sentam boquiabertos na frente dos monitores. Eles não
estão felizes com nada disso. Eles sabem que não é nada bom. Mas eles parecem não
conseguir fazer nada a respeito. Eles correm em círculos e gritam uns com os outros.
Eles se reúnem ansiosamente junto aos computadores. Eles balançam as cabeças sob
insanos relatórios e gritam, “Isso não pode estar certo, caralho,” mas os monitores
continuam mostrando o que mostram.
É assim que se parece lá dentro – como se houvesse uma Missão, mas sem nenhum
Controle.
Antes de descer para a reunião, eu pego minha cópia do livro Solte Seu Monstro, do
guru americano de autoajuda Dr David S. Hauptnian, e abro aleatoriamente: “Em todas
as eras, nascem homens que, no fundo do coração, no lado negro do seu sangue, são
guerreiros. Mas, para a maioria de nós, não há mais guerras para lutar. O que devem
fazer esses homens?”
Quando deixo meu escritório, eu ouço sons de celebração, risadas e rolhas sendo
destampadas – vindo do corredor do departamento de contas. -Por que esses palhaços
estão tão felizes? – pergunto à Rebecca.
-Rick acabou de descobrir que vai ser pai. – ela diz alegremente, e eu percebo que
ela está genuinamente feliz por ele.
Isso me espanta por dois motivos: 1) felicidade genuína pela sorte de alguém na
qual você não tem nada a ganhar, e 2) porque esse cara está celebrando o fato de que
sua vida está acabada? É como se você corresse do consultório médico guinchando de
alegria enquanto balança o teste de câncer positivo. A noção de crianças me deixa

doente. O pensamento de ter um... quando você vê esses caras no supermercado,
levando o carrinho de compras enquanto seus pirralhos choram e resmungam, e
enchem de perguntas imbecis sobre qualquer coisa que eles tiram das prateleiras.
Quer dizer, só a mera ideia disso, apenas a própria palavra: família. Onde quer que eu
veja, em panfletos de viagem, ou agendas (feriado familiar, salão de família), me sinto
mal.
E agora, estou pensando. Rick? Quem caralhos é Rick do departamento de contas?
*
Então, é isso que faço. Eu escuto música – cantores, bandas, compositores – e
decido quais deles terão uma chance de sucesso comercial. Então faço com que eles
sejam gravados de uma maneira planejada e nós, a gravadora, vendemos a você, o
público. Parece fácil? Vá se foder – você não duraria dez minutos.
Agora, eu não tenho o hit perfeito. Ninguém tem. Mas eu sou bom pra caralho. Em
média eu só erro talvez oito ou nove vezes entre dez. É como dizer que, se você tocar
pra mim dez músicas sem assinatura, eu vou instantaneamente escolher três ou
quatro que se tornarão um enorme sucesso. Eu já escolhi as fitas demo de bandas que
são superastros agora, bandas que você possui o CD, lágrimas de riso encharcando
meu rosto. Eu já repreendi e insultei subordinados for ter a audácia de tocar músicas
pra mim que futuramente venderiam milhões.
É bem provável que eu aplaudirei três ou quatro faixas que se tornarão uma
absoluta, classe A, merda. Nós, minha gravadora, já gastamos milhões, literalmente
milhões, de pratas assinando e desenvolvendo música que, no fim, nenhuma pessoa sã
queria escutar.
O que talvez imponha a questão, que tipo de música eu gosto? Por incrível que
pareça te perguntam isso de tempos em tempos. Geralmente por algum garoto, algum
gerente júnior da empresa que é levado pra almoçar conosco, ou por algum membro
da banda que você quer assinar. O garoto novo é rapidamente cortado com um “Vá se
foder” e o cara da banda que você está tentando assinar ganhará uma sincera e
requintada litania de bandas e compositores seminais “Isso”, você entona
solenemente, “Dylan, Joni Mitchell, The Clash, Husker Du, The Band, Lennon.” (Exclua
e adicione conforme os gostos do retardado ao qual você está falando.) Que tipo de
música eu gosto? Perguntar isso a um gerente de A&R é como perguntar a um
acionista que tipo de ações ele gosta. Ou perguntar a um banqueiro, “Ei, qual sua
conta favorita?” Eu tenho gostos musicais bem amplos. “Eclético”, como músicos
lesados dizem quando querem soar inteligente em entrevistas. Eu não me importo de
qual gênero a música venha – rock, trance, hip-hop, heavy-metal Búlgaro – desde que
seja lucrativa.
Finalmente, dessas dez faixas, pelo menos uma irei acertar. Contanto que eu
consiga fazer isso durante alguns anos, então estarei muito bem. Estou bem à frente
da curva. Quer dizer, há caras que nunca acertam.
Algo importante a se dizer sobre reuniões – nada de importante nunca é decidido
em reuniões. Os lugares pra você se dar bem são em almoços, no escritório de alguém,
no corredor, em alguns drinques, jantar, em qualquer lugar, menos em uma porra de
reunião. Reuniões são boas, no entanto, para implicar, menosprezar, desmerecer, e
humilhar as pessoas.
Esse é particularmente o caso em reuniões em que há representantes presentes de
diversos departamentos. Nessa reunião de negócios em que estou atolado agora há

pessoas dos Assuntos Legais (Trellick), Contas (Leader-kramer), A&R (eu mesmo,
Hastings e Waters, que sãos meus colegas, meus camaradas gerentes de A&R, e
Schneider, Chefe de A&R e nosso patrão imediato) e Internacional (Nicky). No topo da
mesa de vidro se senta Derek Sommers, o Diretor Geral. Aos quarenta e cinco Derek é,
de longe, a pessoa mais velha no recinto. Katy, secretária de Trellick, toma notas.
Um truque útil em reuniões como esta é fazer um ou dois comentários sobre os
negócios de um dos presentes disfarçadamente. Algo que eles deveriam saber, ou que
eles não fizeram mas disseram que tinham feito. Você então manda seu cuidadoso e
afiado comentário no momento certo – geralmente na forma de uma pergunta
inocente ou observação – e se retira a uma distância segura. Reuniões de negócios são
um fórum de discussão especialmente bons para esse tipo de facada pelas costas
porque as apostas são altas. Todo homem de A&R tem seu gráfico de falhas analisado;
quanto você gastou nesse contrato, quantos discos venderam, o que há mais pra
gastar, quanto podemos vender. Não há onde se esconder porque é como olhar para
uma conta bancária; ou há crédito, ou há débito. E, acredite em mim, nós não
perdemos muito tempo falando sobre os créditos.
-Paul, o LP do Rage? – Trellick diz, virando-se para Schneider e tirando uma mexa de
seu grosso cabelo loiro da testa. James Trellick é um aristocrata genérico, o produto
final de uma linhagem de ricos-comedores-de-cu-de-pobres que se estende até a Idade
das Trevas. Ele é alto e desnecessariamente bonito com um inquiridor, saliente e
partido queixo que parece padrão para tipos como ele. Mas é sua voz que realmente
se destaca; uma profunda e potente voz de barítono, o som de alguém que nasceu pra
dominar o império.
-Quase concluído – diz Schneider, se recurvando, comendo uma maça verde. –ele
quer fazer uma demonstração para todos daqui algumas semanas. – Schneider é como
uma versão raquítica, pequena, e judia de Trellick; roupas similares, que não caem tão
bem, uma escola pública de menor prestígio, sua voz uma minúscula, aguda,
comparada à voz de trovão de Trellick. Hoje seu cabelo preto está penteado pra trás e
ele recentemente começou a usar uns óculos de armação preta que o palhaço
indubitavelmente pensa que faz ele parecer mais inteligente. Ele irá tirar eles, e
mordiscá-los, refletindo, durante a reunião. Como um roedor, Schneider tem uma cara
de vítima. As circunstâncias do tempo e geografia durante seu nascimento o fez ter
oportunidades, mas não tem para onde correr – se Schneider tivesse nascido algumas
décadas mais cedo, e alguns quilômetros ao leste daqui, ele seria posto em um trem,
queimando no sol rumo a Birkenau ou Belsen, para encontrar os guardas caindo um
por cima do outro para fodê-lo. Ele morde sua maçã e continua a falar sobre datas de
lançamento e posições nas paradas. Ele parece relaxado. Ele não está.
Verdade seja dita, Schneider já assinou muitos fracassos pelo caminho e sua posição
como Chefe de A&R está gradualmente sendo ameaçada. Ele assinou o superastro de
drum’n’bass Rage há dois anos e o álbum de estreia Fósfor-essência (meu ovo) foi a
sensação de dança e estilo no ano passado, valendo ouro e conseguindo uma
nomeação do Mercury pelo caminho. Entretanto, um bom disco não significa porra
nenhuma quando é acompanhado por um investimento de dois milhões de libras em
quatro absolutos fracassos seguidos. Você precisa de discos de platina para se safar de
tamanha vergonha. O novo disco de Rage é, Schneider espera, sua última salvação.
Ameaçadoramente, contudo, Rage anda trabalhando no disco em total isolação em um
estúdio residencial durante os últimos quatro meses, e nós não ouvimos uma nota

ainda. Os rumores dizem (e os rumores estão sempre certos, embora brevemente) que
ele está abusando do pó. Gramas e gramas todo dia. Como eu trouxe o acordo com
Rage quando era só um olheiro, eu ainda estou envolvido no projeto. Mas a uma
distância segura, pois Rage, eu suspeito, não tem mais nada a oferecer. Um completo
vácuo de talento. Ele é também o desgraçado mais difícil de se lidar que você pode
conhecer.
-Nós já temos o orçamento da tour de suporte? – Derek pergunta.
-Quase, - Schneider diz, jogando o miolo da maçã na cesta, - Steven e eu
almoçaremos com ele e Fisher semana que vem, no MIDEM, para finalizar tudo.
(Schneider, por sua vez, tenta me trazer pra mais perto do projeto, no caso de a coisa
toda inevitavelmente dar merda, e ele subitamente precisar de um bode expiatório.)
-Bom, bom, confirme tudo e me atualize sobre o orçamento assim que puder, por
favor. – Trellick diz, enquanto se vira para Rob Hastings.
Hastings é fino como uma corda de guitarra e nervoso como um presidiário recém
saído da prisão. Seus olhos de coelho, escaneiam tudo ao redor – tentando prever de
onde virá o próximo ataque – enquanto seus dentes tortos de coelho se prendem em
um dos nojentos cigarros enrolados. Ele não se veste como um de nós também; nada
de casimira preta de gola V, nada de botas da Prada, ou Kurt Geiger para Hastings. Ele
se veste com camisetas de flanela com os cotovelos rasgados, jeans decrépido, e Dr
Martens. Admito, o cara me intriga. Alguém me contou que Rob disse que pode viver
confortavelmente gastando cem pratas por semana. Tudo que ele faz é beber cerveja
barata, comer um curry de vez em quando e um ocasional baseado. Ele dirige um VW.
Ele enrola os próprios cigarros. (Por que o demente megamongol não está gastando
todo seu salário – e ainda mais – nos finais de semana? Porque ele não está cheirando
montanhas de cocaína e comendo putas? Onde estão as férias em hóteis e bares cinco
estrelas? Por que ele não está gastando o que tem comprando Paul Smith e Armani?
Ele ganha o suficiente. Quer dizer, que porra tá acontecendo?) Ele é um genuíno cara
legal que tem bom gosto musical e que trata as pessoas com dignidade e respeito e o
mais próximo que ele chegou de uma música de sucesso foi quando ele assistiu a
premiação do Emmy. Isso mesmo, ele é um completo zero a esquerda e como ele
chegou até aqui é um completo mistério pra mim. Por um lado, eu não me importo se
Rob vive ou morre, mas por outro, fico feliz por ele estar aqui porque ele melhora
minha aparência. Eu poderia confortavelmente ser lobotomizado e ainda assim eu
faria meu trabalho melhor do que Rob Hastings. Tudo que Trellick e Derek vêem, no
entanto, é uma pária na folha de pagamento que afeta seus bônus, e
consequentemente qualquer um deles teria demitido Rob com alegria. Demitido? Eles
o matariam se pudesse.
-Rob – Trellick fala pausadamente, - você poderia nos atualizar sobre o Sound
Colective, por favor?
Há uma mordida ansiosa de lábio enquanto Rob se endireita na cadeira para sua
surra semanal por causa desse assunto.
O Sound Colective – uma afiliação independente de DJs, rappers, produtores e MCs
de Southend – foram assinados por Rob há uns dezoito meses atrás motivado por
alguns artigos nas revistas de dança exageradamente entusiasmados, e algumas
reproduções tarde da noite na Radio 1. Rob vem os “desenvolvendo” desde então e
não estamos perto de lançar um disco do que quando estávamos quando os
assinamos, na verdade, minha mãe está mais próxima de lançar seu álbum de estreia

do que o Sound Colective, que acreditam que nosso papel é jogar montanhas de
dinheiro na conta deles e manter nossas bocas brancas fechadas. Nós já gastamos
quatrocentos mil e não ouvimos um pingo de música.
Rob enrola um cigarro entre os dedos e fica indiferente – Atualizar? Sim, claro. Uh,
eu fui lá semana passada. Está, hm, está realmente se ajeitando.
Trellick: - Aha. Bom. Poderia ser mais específico?
-Cara, você não vai acreditar como o estúdio está se ajeitando. Eles pintaram a sala
de azul celeste. – Todos olham pra ele. Me pergunto se ele está drogado.
-Bom. Bom, - diz Trellick, perdendo a paciência – temos alguma música até agora?
-Não ainda, não. O negócio é que MaxMan, o rapper deles, voltou pra Trindad
para... – ele tagarela sobre o que aqueles pretos insolentes andam fazendo com nosso
dinheiro. Algumas pessoas frequentemente cavam seu próprio túmulo nesses tipos de
reunião. Rob está construindo um mausoléu inteiro. Derek está enrubecendo, indo de
malva, para vermelho, para fluorescente, a cor de sua camisa.
Derek por sua vez se veste como ele é: um rico, psicótico, sem gosto, e viado de
meia-idade. Grotescamente acima do peso, ele prefere camisas ondulantes da Versace
e Ralph Lauren – em rosa-fúcsia, verde esmeralda, amarelo canário, e horrorosas
combinações dos três – que são usados em uma desesperada tentativa de disfarçar a
enorme barriga. Seu cabelo preto e pequena barba são salpicados de prata, o cabelo
rareando em cima enquanto permanece uma luxuriante juba dos lados. Sua expressão
facial normal, a que ele usa quando está “ausente”, quando ele está tentando
apresentar uma persona, é realmente interessante: os olhos papudos giram devagar,
escaneando, avaliando. Uma leve cintilação de um sorriso, ou de um escárnio, treme
com uma corrente elétrica através de seus lábios enquanto, em cima, o nariz vermelho
– a cor como um lembrete das infernais quantidades de cocaína e lança-perfumes que
ele indubitavelmente usou noite passada – ritmicamente se dilatam gentil ou
rapidamente, de acordo com seu humor. Quer dizer, ele parece com o maldito Calígula
ou algo assim, louco e furioso, frio e violento.
Rob ainda continua – E Massive Atack, Goldie e James Lavelle estão todos afiados
também. Mas o equipamento não andava muito bem, então tivemos que trocar a
maior parte e –
-Sim, Rob, eu entendo. – Trellick levanta a mão para silenciá-lo – Entretanto, nós
estamos, - ele consulta as notas – quatrocentos e setenta e oito mil libras no prejuízo
até agora com esse contrato, e não estamos nem perto de –
- Olha, James, eu sei que a situação é frustrante e tal - diz Rob, tentando ser
assertivo, - mas o processo criativo, cara. Às vezes você não pode, cê sabe, apressá-lo.
Há um espanto coletivo à essa besteira. Eu interrompo, dirigindo meu comentário a
Trellick.
-É, James, calma aí, não é como se nada tivesse acontecendo aqui. Há
definitivamente uma vibe por essa banda lá fora – eu tento manter uma cara séria.
Rob, o absoluto otário, está assentindo, achando que estou indo em sua defesa – E
Ron está fazendo coisas muito boas para apoiar. Quer dizer, aquelas camisetas estão
fantásticas.
A cabeça de Derek sobe subitamente – um cão de caça faminto vendo carne
– Camisetas? Mas que porra de camisetas?
Bingo. Em um equivocado ato de loucura (e, suspeito, sob extrema pressão dos
nossos amigos de cor lá de Southend) Rob mandou fazer algumas camisas do Sound


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