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miolo .pdf



Original filename: miolo.pdf
Author: Vitor Figueiredo Hércules

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1. Animais

i
Para um menino do campo, um pequeno inseto abaixo
de sua cama não era um problema para se resolver. Bastou algumas batidas com uma bota de fivela marrom para que o inseto jorrasse a gosma de dentro do seu corpo para fora e ficasse com seu exoesqueleto todo amassado no chão. Entretempo, sua irmã de bochechas azuladas encostada com a parede,
pálida de tão assustada, gritava por ajuda para os seus pais que
dormiam no outro quarto no final do estreito corredor da
casa. Seu pijama amarelado e de bolinhas ganhou alguns respingos de cor esverdeada, o que fez seu irmão rir da situação
enquanto ela se debatia com a feição de nojo. Seus pais abriram a porta do quarto com desdém, como todos os pais fazem, e logo perguntaram o porquê de Maxwell rir.
“Ela é boba”, diz o menino. “Está quase chorando por
causa de um inseto bobo e nojento.”
9

Sua mãe o lhe encara.
“Você também chorava quando era menor, e nem por
isso nós riamos de você, Maxwell.”
“Mas vocês são meus pais”, rebate.
Eles se entreolham.
“Está bom por hoje, está tarde, e amanhã temos tarefas
para fazer”, diz por fim o seu pai abraçando a sua filha e a
deitando na cama. “Não se preocupe, eles não lhe farão mal
algum, filha.”
A sua mãe também a abraça e pega o pijama sujo e o
leva com ela, fechando a porta após apagar as luzes do quarto
dos dois, deixando a menina só com a sua fralda, enrolada
em um cobertor, e o seu filho sem ao menos com uma boa
noite.
ii
Na noite posterior mais um inseto gosmento passava por
debaixo da cama do menino, mas dessa vez sua irmã não estava acordada, e nem se pôs a matá-lo com a sua bota. Meio
zonzo pelo sono, colocou-se de pé e andou até a mesa com
cheiro forte de madeira velha onde guardava as cartas que recebia da sua tia. Fazia isso todas as noites de forma involuntária, mesmo nunca tendo se perguntado o porquê de fazer
isso. Puxando a corda o abajur se acende e observando se sua
irmã não acordava, ele tira da segunda gaveta, debaixo de algumas roupas, a última carta recebida. Ele sentia um sentimento de conforto ao mínimo toque nas cartas, pois dali, de
todos os adultos, sua tia era a única que parecia dar ouvidos a
tudo o que o menino lhe falava. Por fim, por não enxergar di10

reito, ele devolve a carta para dentro da gaveta mas não a consegue fechar mais, algo estava impedindo.
Ele empurrava e empurrava e nada parecia acontecer.
E então, um grande barulho de patas andando de um
lado para o outro e um chiado agudo tomou conta daquela
mesa de madeira. Por um clarão repentino da janela, ele
pôde ver vários insetos saindo das mais pequenas frestas, percorrendo todo o redor e putrificando e desmanchando onde
pisavam naquela mesa, a transformando ao nada, e assim
caindo aos montes no chão e infestando os pés de Maxwell e
o resto do quarto escuro. Ele gritava como sua irmã fizera na
noite passada, só que ninguém parecia o ouvir, pois até sua
irmã que estava ali não tinha acordado com seus gritos. Aqueles pequenos insetos pareciam famintos pelas picadas que levava, Maxwell balançava seu corpo em frenesi e arranhava
seus braços tentando tirar todos eles que continuavam a subir
pelos braços.
Estava desesperado.
Até que ele sente uma mão pesando sobre o seu ombro.
Os insetos sumiram.
“Como está se sentindo, Maxwell?”, ele ouve sua tia.
Ele se vira, e por mais que o quarto estivesse escuro,
agora as luzes pareciam acesas.
“Estou com medo”, murmurava quase ao choro, “Estou
com medo, eu estou com medo.”
Sua tia se abaixa até ficar a sua altura, o olhando nos
olhos e o deixando abraçá-la.
“Está tudo bem, esses animais não lhe farão mal nenhum, filho.”

11

Ele então abre os olhos ao não sentir mais sua tia, e verdadeiramente ela não estava mais lá. Estava deitado, com
lágrimas serpenteando suas bochechas avermelhadas, o que
lhe fizera questionar se o que passara agora teria sido só um
pesadelo ruim, ou se tinha sido real demais para ter sido só
isso.
iii
A vilinha que moravam se escondia atrás de uma grande
montanha, o que fazia o dia começar mais tarde. Estavam
centrados no total das três casas que ali se tinha: os Dreitrês,
os Doisdeux e eles, os Oneum. Maxwell Oneum era o primeiro filho, de cabelos longos e loiros, e de bochechas avermelhadas, assim como o seu nariz, era o único menino das
três famílias, o que causava estranheza em seus vizinhos.
Marta Oneum, sua irmã, outro lado se dava muito muito
bem com eles.
“Marta, diga para os seus vizinhos o que você fez ontem
com a mamãe”, questiona a menina na frente dos Doisdeux
em frente da porta de sua casa, onde as outras meninas brincavam naquela tarde.
“Eu bati gemas de ovos e ajudei a fazer o bolo, vocês
querem senhor e senhora Doisdeux?”, explica, gesticulando
com as suas pequenas mãos.
Ela então sorri terminando de explicar, e tirando de sua
mochila um pedaço farto do bolo que fizera com a sua mãe,
ela oferece para os seus vizinhos.

12

Os Doisdeux recusam o presente e entram em sua casa
depois de chamar a sua filha para dentro, fechando a porta
com um sorriso para Marta e sua mãe.
“Eles adoraram o bolo, mãe”, fala contente, mordendo
um pedaço do bolo e sorrindo para sua mãe com os dentes
sujos de chocolate.
A mãe de Marta então acena com a cabeça e ambas entram em casa. Não havia mais nenhuma criança brincando
ali, Maxwell já estava em casa em seu quarto, e o seu pai em
poucos minutos chegaria com a comida.
A noite chegava e nenhuma das três famílias ficava do
lado de fora, sempre fora assim e será assim para sempre.

13


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