S. Barreto Discursos mudos Contos.pdf


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Carta-prefácio
Céu do Rio de Janeiro, 06 de junho de 2017.
Meu caro contista.
Ah! Como é bom estar de volta; e o melhor ainda escrever,
cousa que mo dediquei a vida toda a fazer tal como o leitor bem
sabe, ou melhor, deveria saber.
Desde a fatídica e famigerada data que dei de cara com a
morte, em meados de setembro de 1908, nunca mais havia
encontrado ensejos a tornar a produzir. Não! Não estou me
maldizendo por conta dessa nova condição póstuma que me
encontro diria eu, nem tampouco encontro-me desconfortável com
ela. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para
rir, também não deixa olhos para chorar...
Os mortos não vão tão depressa, como quer o adágio; mas
que eles governam os vivos, é coisa dita, sabida e certa.
Eu que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando
ela veio ter comigo. Ao verme que roeu as frias carnes do meu
cadáver nada mais me tenho restado do meu corpo materialmente
falando; mas deveras sim, somente meu espírito eternamente vivo,
e estando nesta condição a tudo vejo, inclusive a feitura deste
volumezinho.
Antes de tudo, porém, digamos os motivos que me põem
novamente a pena na mão, notadamente, com vistas a tecer um
breve comentário sobre este livrinho do meu mui amigo, o Dr.
Saulo Barreto; devo dizer que Jesus fora assaz misericordioso para
comigo; pois hoje eis me aqui próximo ao Seu trono do seu lado,
embora tenha feito ―A igreja do diabo‖ e de chamarem-me ―Bruxo
do Cosme Velho‖. Nada disso, para minha sorte, fora suficiente
para macular minha imagem perante o Rei Altíssimo e por
conseguinte, eliminar meu nome do Livro da Vida. Deus sabe o que
é licença poética! Aliás, Deus sabe o que é arte! Deus ama a arte!
Então cá fico eu, à sombra dEle por entre essas nuvens
alvas e gélidas, percebendo a quantas andam as coisas aí debaixo na
terra. Não obstante, aqui estando recordo-me de uma passagem dos
meus escritos que trato de dividi-los agora com rechonchudos
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