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Hoje acordei sem ti ao meu lado.
Pesarosamente olhei para a janela e era dia, tornada noite. Havia bruma e os pássaros
cantarolavam baixinho melodias roucas, interrompidas pelo uivo do vento. É Inverno e faz
frio. Tenho frio.
O meu corpo nu e gélido, empalideceu ao sentir a cama despida de ti.
Não me senti como costumava sentir-me, abrigada e terna. Quente e destemida.
Ao canto, olho-me de soslaio, já não me reconheço. Tento mover-me, mas o meu corpo
entorpecido não me obedece. Tento tocar-te, aproximar-me e aninhar-me em ti, mas a
carne que outrora reagia, transformou-se em gelo, rígida e fria.
Os meus olhos ardem como pequenas fagulhas, como as que crepitam de uma fogueira
ancestral. As minhas mãos tentam limpá-los, mas só sinto dor.
Hoje, acordei sem acordar. Permaneço neste limbo, neste abismo que me fascina como
um sonho. Não me lembro de ter sonhado, mas também ainda não despertei.
Vejo-me como uma criança num velho baloiço, tristemente abandonada num parque sem
vida. E está frio.
Retorno ao que me resta, a este ser que é o restolho de toda a minha existência. Limitome a respirar. De alma vazia e voz trémula, chamo o teu nome. Ou estarei sem voz?
Desespero e enrolo-me no chão húmido e embaciado. Debato-me com os fantasmas que
me atormentam chamando-me de volta.
Desejo que o tempo pare, que o céu se abra e deixe o sol queimar-me a pele de novo.
O quarto rodopia diante dos meus olhos, ainda queimados pelas fagulhas. Agarro-me ao
que resta de ti em mim para não caír no absoluto nada.
Ainda adormecida pela intempérie que me entorpeceu, arrasto-me pela pedra dura que me
ampara e estendo a mão á vida.
Sacudo-me uma vez mais nos lençóis frios e sinto, - desde há muito que não sentia - uma
centelha do que já fui. Abraço o fulgor que se apodera do meu corpo nu e vinco as unhas
ao meu ventre.
Já é dia, meu amor. E tu voltaste.
Os pássaros cantam alegremente e o sol irradia o quarto, como um lindo quadro a óleo.
Hoje, acordei sem ti.
Mas encontrei-te em mim.


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